Introdução ao XBRL – nova linguagem para a divulgação de informações empresariais pela internet
Edson Riccio
Professor dos cursos de graduação e de pós-graduação da FEA/USP
E-mail: elriccio@usp.br
Marici Sakata
Doutoranda e mestra em ciências da comunicação pela Escola de Comunicações e Artes (ECA)
E-mail: mcsakata@usp.br
Orandi Moreira Pesquisador do TECSI –
Laboratório de Tecnologia e Sistemas de Informação. Mestre em
contabilidade e controladoria pela Faculdade de Economia, Administração
e Contabilidade da USP.
E-mail: orandi@usp.br
Luc Quoniam
Professeur de Université du SUD Toulon-Var, França e professor visitante da FEA USP
E-mail: quoniam@usp.br
Resumo
O trabalho tem como objetivo analisar as principais
características de divulgação de informações financeiras pela Internet,
por meio da linguagem eletrônica XBRL – eXtensible Business Reporting
Language. Foram estudados a sua trajetória, estado da arte,
funcionalidades, principais locais de desenvolvimento, grupos de
pesquisa, institutos envolvidos, eventos relacionados, taxonomia de sua
estrutura, tendo como base a bibliografia sobre o tema.
Palavras-chave
Difusão de informações. Governança. Internet. Relatório financeiro. XBRL. XML.
Introduction to XBRL – the new language for corporate disclosure throughout the internet
Abstract
The objective of this paper is to analyze the main
characteristics of dissemination of funding information through
Internet, by means of the XBRL electronic language - /ExTensible
Business Reporting Language. The main subjects studied are XBRL
trajectory, state-of-art, functionalities, principal places of
development, research groups, institutes involved, events related,
taxonomy of its structure, having as a basis the bibliography about the
theme.
Keywords
Corporate governance. Disclosure. Financial statement. Internet. XBRL. XML.
INTRODUÇÃO
A globalização, a nova economia e a sociedade da
informação estão presentes no dia-a-dia, independentemente das
atividades a que se dediquem. Os países e as pessoas estão cada vez
mais interligados. Antes, pelos meios tradicionais de comunicação, e
agora, principalmente por meio da Internet. As empresas abertas
divulgam suas informações financeiras visando a atender às legislações
específicas e às entidades reguladoras dos mercados em que atuam. As
empresas também precisam passar uma nova imagem à sociedade, com a qual
têm a intenção de se mostrarem modernas, abertas e transparentes. Para
tanto, necessitam meios capazes de transmitir informações financeiras
de forma mais ágil e dinâmica do que aquela observada até o momento.
Este trabalho tem como objetivo principal analisar
as principais características desta forma de divulgação de informações
empresariais, a evolução do XBRL e o estado-da-arte da linguagem.
METODOLOGIA
Para que se possa saber o grau de desenvolvimento
notado em um país ou em um segmento de mercado, partindo dos conceitos,
é necessário buscar meios de quantificar a utilização ou o envolvimento
de uma nação ou de um segmento de mercado no objeto em estudo.
Para essa etapa inicial de estudos, a técnica
utilizada foi a revisão bibliográfica e documental. Os resultados
obtidos permitiram que dados qualitativos fossem levantados, gerando
bases para uma posterior análise das mudanças. Estudou-se o surgimento
e a evolução das chamadas linguagens de marcação, a evolução da
linguagem XML e o desdobramento de sua vertente para demonstrações
financeiras como o XBRL, buscando-se suas características, seus módulos
principais, e estudou-se o que vem a ser a chamada taxonomia necessária
para se utilizar a linguagem.
Fez-se então uma passagem literária por vários
países do mundo, buscando-se saber como estão sendo desenvolvidos os
estudos desta linguagem, qual a forma de organização das entidades
envolvidas com estes estudos, qual o estágio de desenvolvimento já
detectado no objeto em estudo e comparativamente como estão estes
estudos no Brasil.
A EVOLUÇÃO DAS LINGUAGENS DE MARCAÇÃO (MARKUP LANGUAGE)
A origem das linguagens de marcação data de 1960,
quando a IBM, avaliando a comunicação então existente entre diversos
sistemas, constatou que diferentes tipos deles não conversavam entre
si. Seu departamento de engenharia propôs, como solução, a primeira
linguagem de marcação, que chamou GML, Generalized Markup Language.
Conceitualmente, linguagem de marcação não é simplesmente uma
linguagem, mas sim uma chamada metalinguagem. Sua proposta é descrever
um método para descrição de dados, de forma a estabelecer uma série de
regras e procedimentos que permitam identificar como funciona um
conjunto de informações, ou seja, um protocolo de normas (ALIANA, 2004,
p.4). O termo Markup vem a ser as marcas, ou labels, que identificam
onde e como a informação deverá aparecer, tornando-a assim uma
linguagem que permite construir uma linguagem.
Marcação é a informação incluída em
um documento para melhorar seu significado, por identificar as partes e
como elas se relacionam, e “linguagem de marcação é um conjunto de
símbolos que pode ser colocado no texto de um documento para demarcar e
rotular as partes desse documento (RAY, 2001, p. 3).
A ISO, International Organization for
Standardization, reconheceu em 1986 a primeira linguagem de marcação,
chamada SGML – Standard Generalized Markup Language –, a qual recebeu o
ISO 8879 (ISO, 2004). Esta linguagem, sendo de marcação, não especifica
uma formatação particular, mas sim as regras para marcar os elementos,
de maneira que essas marcas possam ser interpretadas para formatar
elementos em diferentes formas. Ela é ainda bastante utilizada quando
se deseja manipular grandes elementos, que podem estar sujeitos a
alterações freqüentes e necessitar serem apresentados em diferentes
formatos. Mas, com o tempo, demonstrou ser demasiadamente complexa e
também requerer gran-des áreas de trabalho, o que dificultou sua adoção
em larga escala, principalmente em computadores pessoais. Mas serviu de
base para as próximas markup language que viriam a ser desenvolvidas
(WEBOPEDIA, 2004).
O desenvolvimento continuou e, em 1990, Tim
Berners-Lee, físico suíço, liderou o desenvolvimento de uma linguagem
que chamou HTML – Hypertext Markup Language – e deu nome a seu sistema
de WWW, World Wide Web –, que, sabe-se, foi aquele em grande parte
responsável pela “explosão” do fenômeno Internet (HOFFMAN; STRAND,
2001, p.35). Este chamado hipertexto é na verdade um documento que
possibilita incluir em seu conteúdo ligações com outras partes desse
mesmo documento ou com documentos diferentes. Essas ligações
normalmente são indicadas por meio de uma imagem ou texto em uma cor
diferente ou sublinhado. Quando se clica na ligação, o usuário é levado
até o texto ligado (PICONEZ, 2003, p.4).
A linguagem XML
Quando parecia que a HTML viria resolver o problema
de complexidade até então verificado com a SGML, constatou-se que sua
simplicidade, por sua vez, acabava sendo fator de muitas limitações,
pois era muito estática e permitia apenas que a informação fosse
apresentada, não possibilitando outras formas de interação. Segundo
Aliana (2004, p.4),
um arquivo em formato HTML permite
mostrar os estados financeiros de uma companhia, mas impede o usuário
de saber como foram construídas essas cifras.
A solução foi dada em 1998, com o W3C, World Wide
Web Consortium, um consórcio internacional que desenvolve tecnologias
para a web, que disponibilizou formalmente a linguagem XML – eXtensible
Markup Language –, que também é compatível com a linguagem SGML, mas
considerada bem menos complicada, e possibilita incorporar códigos de
formatação com grande variedade de programas de computador.
Hoffman e Strand (2001, p.35) defendem que a
linguagem XML é bem fundamentada teoricamente, pode ser vista e editada
com qualquer editor de texto e pode ser lida e entendida tanto pelos
computadores quanto por humanos. Já para Light (1999, p.47), receber
XML, em vez de HTML, torna-o muito mais auto-suficiente, pois os
processadores XML genéricos lhes permitirão carregá-la usando uma
tabela virtual de conteúdo gerada pelo próprio documento e assim os
clientes não precisarão retornar ao servidor simplesmente para ver a
informação de uma forma diferente. Assim, se você quiser uma visão
diferente da informação, somente terá de carregar uma folha de estilo
diferente.
O quadro 1, a seguir, apresenta um documento-texto (parcial).
QUADRO 1
Documento-texto

Fonte: Hoffman e Strand (2001, p. 37).
Já o quadro 2 apresenta um possível correspondente documento XML das informações.
QUADRO 2
Documento XML

Fonte: Hoffman e Strand (2001, p. 38).
O que se observa é que cada informação é marcada
(markup) quando se usa o XML. Esta é a solução encontrada para que o
computador possa entender a informação. Posteriormente, estando no
formato XML podem ser usadas folhas de estilo (style sheet) para
transformar a informação para o formato que se deseje, como formato
texto para impressão, HTML, Word, Planilha, Banco de Dados, ou outros.
Para realizar essa transformação, já foi desenvolvida a ferramenta XSLT
– eXtensible Stylesheet Language Transformations –, a qual facilita
fazer a transformação para o formato requerido.
Para Aliana (2004, p. 5)
(...) o XML se configura assim como
uma linguagem universal, tanto para formatar como para apresentar a
informação. Uma vez que os dados estão codificados ou identificados com
etiquetas, estes podem ser utilizados de formas diferentes. Através de
uma série de regras, guias e convenções, desenham o formato dos textos
e dos dados de modo que pode facilmente ser lido e gerado por um
ordenador, de forma não ambígua e evitando falhas comuns como falta de
exportabilidade ou dependência específica de uma plataforma.
Hoffman e Strand (2001, p. 42) afirmam ainda que
XML é uma linguagem para construir linguagens e, dessa maneira, não
poderia uma única linguagem servir para todos os tipos de necessidades.
Uma extensa gama de aplicações para a XML vem surgindo ao longo do
tempo, e com isso essa linguagem está sendo utilizada em diversos
campos, como o da matemática e da física, bem como tem sido aplicada a
atividades de negócios, como no caso do comércio eletrônico, entre
outros. Assim, cada grupo desenvolve a linguagem XML voltada para suas
necessidades específicas. O quadro 3, a seguir, apresenta algumas
dessas variantes específicas já existentes.
QUADRO 3
Exemplos de linguagens XML específicas

A linguagem XBRL
A linguagem XBRL é uma das variantes da XML, com o
propósito de se tornar a linguagem-padrão para divulgação de
demonstrativos financeiros, que está sendo desenvolvida pelo consórcio
XBRL International.
O início do desenvolvimento da XBRL data de abril
de 1998, com Charles Hoffman, um CPA, Certified Public Accountant, da
empresa Knight Vale and Gregory, em Tacoma, Washington, que passou a
pesquisar o uso da linguagem XML para divulgar informações financeiras
para divulgação eletrônica (TRUMAN, 2004). Em julho de 1998, ele levou
suas idéias ao AICPA, American Institute of Certified Public
Accountants, que se interessou pela idéia e criou um projeto para
desenvolvimento de um protótipo da linguagem, o qual já foi apresentado
em 15 de janeiro de 1999 (XBRL HISTORY, 2004).
O AICPA então se convenceu da utilidade da
linguagem e, em junho de 1999, deu início a um projeto que teve o nome
inicial de XFRML, eXtensible Financial Reporting Markup Language. Em
agosto daquele ano, mais 11 companhias também se juntaram ao projeto e
formaram o comitê de desenvolvimento da linguagem, sob o coman-do do
AICPA. Eram elas Arthur Andersen, Deloitte & Touche, e-content
Company, Ernest & Young, Edgar Online, FRx Software Corporation,
Great Plains, KPMG, Microsoft Corporation, PricewaterhouseCoopers e a
The Woodburn Group. Em outubro daquele ano, já acontecia o primeiro
evento público sobre o assunto, na cidade de Nova Iorque, sendo que
neste encontro já se definiu que seria criada a primeira taxonomia
dirigida para divulgação financeira dos setores comercial e industrial
dos Estados Unidos, uma vez que estas representavam cerca de 80% das
companhias norte-americanas (XBRL HISTORY, 2004).
O consórcio teve seu nome mudado oficialmente para
XBRL em abril de 2000, sendo que, em julho daquele mesmo ano,
anunciam-se não só a conclusão da taxonomia para companhias comerciais
e industriais dos Estados Unidos, mas também a internacionalização do
consórcio, visando à rápida expansão da linguagem.
Em fevereiro de 2001, realizou-se a primeira XBRL
International Conference em Londres, contando com representantes de 10
países. Nesse evento, a IASB, International Accounting Standards Board,
já apresentou, para ser apreciada, uma versão da taxonomia IAS,
International Accounting Standards. Também o ICAEW, The Institute of
Chartered Accountants in England and Wales, anunciou a formação de um
grupo de trabalho para desenvolver a versão UK, United Kingdown, da
taxonomia XBRL.
Dessa maneira, fica claro que o XBRL não surgiu por
acaso nem foi uma descoberta, mas, como acontece em todas as áreas da
ciência, é fruto de uma evolução de conhecimentos. Para Debreceny e
Gray (2004), o XBRL foi desenhado para suportar todos os formatos de
relatórios financeiros e de negócios e, sendo baseado na linguagem XML,
aumenta a velocidade do envio de informações eletrônicas.
Na liderança de seus estudos e pesquisas nos
Estados Unidos e no mundo, o AICPA está apostando fortemente na
linguagem e encabeça o consórcio internacional XBRL. Zarowin e Harding
(2000, p.1), dois de seus pesquisadores, afirmam que:
XBRL, Extensible Business Reporting
Language, em breve será a língua padrão para todos os relatórios
financeiros, desde a distribuição de informações financeiras a bancos e
investidores para cumprir as regras da SEC ou carregar informações
financeiras em um site da web. O desenvolvimento certamente irá
revolucionar a maneira como a informação é disponibilizada, usada e
calculada.
Segundo um artigo publicado no The CPA Journal, o
AICPA anunciou naqueles dias sua lista das top 10 technologies que mais
iriam afetar a profissão contábil em 2004, sendo que, entre essas 10,
estava a tecnologia de troca de informações de negócios, via Internet,
tendo citado especificamente a linguagem XBRL (TOP, 2004).
A distinção HTML, XML e XBRL
Apesar de os termos HTML, XML e XBRL estarem fortemente relacionados, precisa-se fazer a distinção clara entre cada um deles.
HTML é um sistema de marcação de documento, de
maneira que ele possa ser publicado na “rede mundial www”. Os
documentos HTML contêm referências gráficas e rótulos (tag) que se
preocupam em descrever como o documento irá aparecer na Internet. Como
exemplo, pode-se dizer que ele descreve qual a fonte, cor, tamanho e
outras características necessárias, quando se vai enviar um texto para
a tela. Porém, ele contém somente dados, e não informações, porque na
verdade tudo precisa lhe ser informado para que ele possa publicar a
informação.
A XML, por sua vez, também usa “tag”, entretanto
não limita um predefinido número desses “tags”, mas sim permite uma
rede desses labels predefinida (taxonomia) e as devidas relações entre
elas. A linguagem XML é mantida pelo Consórcio W3C, na qual os dados
são independentes e podem ser encaminhados a qualquer dispositivo, como
computador, telefone celular e outros, e permite a seus desenvolvedores
oferecer os dados de maneira uniforme e consistente.
E, finalmente, o XBRL é baseado na linguagem XML,
tendo sido desenvolvido especificamente para a emissão de relatórios
financeiros, sendo assim um complemento daquela linguagem, permitindo
que os usuários identifiquem de maneira única os itens que são
disponibilizados em seus demonstrativos. O XBRL é um software livre e
aberto desenvolvido pelo consórcio XBRL International.
Componentes da XBRL
A XBRL possui dois componentes fundamentais: a
taxonomia e o instance document. Eles serão usados simultaneamente,
para extrair suas informações no formato padronizado. Após isso, um
terceiro elemento, o style sheet, pode ser usado como complemento no
momento da conversão da saída para o formato desejado.
Hoffman e Strand (2001, p.68) entendem que a
taxomonia, definindo os fatos financeiros a serem descritos nos
relatórios, constitui-se do vocabulário ou dicionário de termos a serem
usados no instance document, na forma como eles se relacionam entre si,
sendo que uma ou mais taxonomias podem ser usadas em um único instance
document. No instance document é que será informado à aplicação o valor
que esses elementos terão naquele momento. Da leitura e interpretação
desses dois elementos, a aplicação XBRL gerará as informações sobre os
relatórios financeiros, no formato de arquivo XML.
Estas informações poderão então ser baixadas para
outros programas, que farão processamentos posteriores, ou então
poderão ser formatadas para visualização, aplicando o terceiro
componente, style sheet, que permitirá transformar as informações para
qualquer formato desejado, como outro arquivo XML, ou um arquivo PDF,
Portable Document Format, arquivo em formato HTML, arquivos impressos
ou qualquer outro tipo de saída desejada.
A Taxonomia XBRL
Os grandes estudos e discussões atuais da XBRL
estão focados na definição das taxonomias específicas para seus
usuários. É na taxonomia, por meio de um vocabulário controlado, que
poderão ser construídos documentos para a área financeira. Essa
especificação dos dados, que é a explicação técnica do que vem a ser o
XBRL e de como funciona (metalinguagem) forma a base da linguagem e
viabiliza a função principal da linguagem. Esta função é facilitar a
divulgação de ampla gama de conteúdos contábil-financeiros, apesar da
complexidade das informações e regras que esses devem seguir, de
maneira que possam ser facilmente compartilhados, compreendidos e
manuseados pelos usuários.
A taxonomia define os termos que serão utilizados
nos demonstrativos, assim como os tipos de dados que serão abrigados
por cada um destes termos, que serão dados pelas especificações de cada
item, e ainda as relações entre cada um destes termos, que resultarão
em um relatório final. De acordo com a Encyclopaedia Britannica, o
termo taxonomia, na biologia, é a classificação de um organismo em
hierarquias de agrupamento, do geral para o particular, que reflete as
relações evolucionais e morfológicas. Assim, de uma forma geral,
entende-se por taxonomia o estudo de princípios gerais de classificação
científica (MERRIAN-WEBSTER, 2004). Aplicado ao XBRL, o esquema básico,
que define as estruturas dessa taxonomia, pode ser visualizado na
figura 1.
FIGURA 1
Estrutura de Taxonomia

Fonte: Debreceny e Gray (2004, p. 14).
Assim, a taxonomia da XBRL pode ser entendida como
um dicionário para fornecer definições-padrão para as informações dos
relatórios financeiros, construído a partir de sua estrutura e
hierarquias. Nele estariam contidas as descrições dos dados numéricos e
textuais a serem reportados em cada caso específico e preparados de
acordo com tal especificação. O cuidado que está sendo tomado na
construção dessa taxonomia é decorrência da complexidade que existe
quando se pensa em relatórios financeiros oriundos de diferentes tipos
de organização, devendo seguir diferentes padrões, regras e
regulamentos de diversos países, e que contêm os mais variados tipos de
informações. É então a taxonomia que irá permitir a característica de
extensibilidade, ou expansibilidade ou customização, do XBRL. Para
Hoffman e Strand (2001, p.57),
o XBRL precisa contemplar as
necessidades de todos os participantes da cadeia de usuários de
relatórios financeiros. Isto inclui diferentes organizações em
diferentes países e jurisdições contábeis, todos com diferentes pontos
de vista do mundo.Desta maneira, a extensibilidade é uma característica
crítica do XBRL.
Para satisfazer às necessidades de cada jurisdição
contábil, cada setor da indústria, cada organização individual, é que o
XBRL foi concebido buscando ser extensível, solução encontrada nas
chamadas taxonomias. Outra característica encontrada na XBRL é a
flexibilidade que proporciona, pois foi concebida possibilitando criar
pares nome-valor, de maneira a fornecer informações fundamentais sobre
eles, como atributos, tipos de dados, formatos e outros. E isto pode
ser explorado visando a adaptar a linguagem às diferentes
características das entidades envolvidas.
Para Silva e Teixeira (2004, p.6), a taxonomia é a
biblioteca dos termos financeiros usados na preparação dos relatórios,
e sua função é definir o conjunto de elementos, com seus atributos, e
os relacionamentos que ocorrem entre si. Na especificação de uma
taxonomia, vários elementos são relatados visando a descrever como
serão aceitos os dados informados e como serão disponibilizadas as
informações. O quadro 4 contém as informações requeridas para criação
de uma taxonomia XBRL.
QUADRO 4
Lista de informações necessárias para criação de taxonomia XBRL

Fonte: Silva e Sulaiman (2003, p.7).
No quadro 5, é apresentado um exemplo ilustrativo do formato característico de uma taxonomia.
QUADRO 5
Taxonomia em XML

Fonte: Vasal e Srivastava (2002, p.26).
Instance Document
Neste documento se representam os fatos financeiros
reais acontecidos na entidade no período relatado, expressos em termos
de esquema XML, utilizando-se a taxonomia XBRL previamente definida.
Nele são informados os valores assumidos pelas variáveis que já foram
previamente definidas na taxonomia, no período considerado. O quadro 6,
a seguir, contém um exemplo de instance document de uma determinada
entidade.
QUADRO 6
Instance Document

Fonte: Vasal e Srivastava (2002, p.28).
O quadro 7 apresenta o balanço da entidade que
serviu de exemplo, no caso a Microsoft, gerado em XBRL, utilizando-se a
taxonomia do quadro 5 e o instance document do quadro 6.
QUADRO 7
Balanço Condensado da Microsoft

Fonte: Vasal e Srivastava (2002, p.28).
Style Sheet
Como mencionado nos itens anteriores, o terceiro
elemento da linguagem XBRL é o style sheet, que visa a permitir que as
informações armazenadas no formato XBRL sejam disponibilizadas em
qualquer formato desejado, ou criar inúmeros arquivos, como outro
arquivo XML, arquivo print file PDF, uma página da web HTML, ou
qualquer outro formato de arquivo. Desta maneira, um style sheet é
composto de comandos que contêm informações de como será a saída dos
dados do documento XBRL. Segundo Swagerman e outros, (2004), isso
implica considerável economia de tempo e esforço na coleta, formatação
e consolidação dos dados e na geração de relatórios para diferen-tes
aplicadores. Um documento style sheet é escrito no formato XSL
(eXtensible Style Language). A relação mútua entre um instance
document, uma taxonomia e um style sheet é ilustrada na figura 2.
FIGURA 2
Relacionamento entre os componentes do XBRL

Fonte: Swagerman e outros (2004, p.5).FIGURA 2
A figura mostra determinada taxonomia, previamente
criada, sendo acessada para fornecer elementos que permitem validar os
dados contidos no instance document, sendo que o style sheet é
posteriormente acessado, a fim de se transformarem os dados, então no
formato XBRL, para qualquer outro formato necessário, dependendo dos
interesses e necessidades de seus usuários. O quadro 8, a seguir,
apresenta um exemplo de um documento style sheet.
QUADRO 8
Exemplo de XSLT Style Sheet

O quadro 9, a seguir, apresenta a respectiva saída obtida a partir da aplicação deste style sheet.
QUADRO 9
Dados XML formatados pela Style Sheet do Quadro 8

Relatórios Financeiros usando XBRL
No Brasil, as companhias abertas devem
obrigatoriamente divulgar suas demonstrações financeiras seguindo as
diretrizes da Lei 6.404/76 (Lei das S.As) e também as instruções
normativas da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Estas
demonstrações financeiras representam o conjunto das informações
referentes aos recursos e às obrigações dessas entidades, aos
acionistas e a outros investidores, em determinado intervalo de tempo.
Desta maneira devem ser apresentados o BP (Balanço Patrimonial), a DLPA
(Demonstração de Lucros ou Prejuízos Acumulados), a DRE (Demonstração
do Resultado do Exercício) e a DOAR (Demonstração das Origens e
Aplicação dos Recursos), além das notas explicativas que complementam
tais relatórios.
Essas informações são de interesse de credores,
investidores, analistas, entida-des reguladoras, governo, associações,
entre outros. Para Farewell (2004, p.2), cada um desses grupos requer
as infor-mações em um formato específico, e com isso as empresas devem
buscar as informa-ções em seus sistemas, transcrever nos formatos
requeridos e submeter a cada grupo de usuários, que por sua vez
transporta essas informações para seu sistema. O processo pode ser
visualizado na figura 3, a seguir.
FIGURA 3
Informações financeiras sem o uso do XBRL

A XBRL, por sua vez, elimina a necessidade de
transcrição de dados entre as aplicações, porque o dado passa a ser
independente do aplicativo no qual ele é criado (os dados são mantidos
de forma independente e sob uma denominação estabelecida e
padronizada). Essa definição faz com que múltiplos usuários sejam
capazes de extrair e reposicionar as informações financeiras. Assim, o
próprio usuário recupera as informações financeiras pela Internet e
passa para o formato que desejar, de acordo com suas necessidades. Este
processo pode ser visualizado na figura 4, a seguir.
FIGURA 4
Informações financeiras com o uso do XBRL

Aspectos sobre o uso do XBRL
Alguns aspectos devem ser discutidos quanto à
implementação da XBRL. A divulgação de informações financeiras das
entidades sempre foi limitada ao material impresso, sendo que uma
mudança para meio eletrônico certamente demandará estudos e discussões
amplos, até que sejam aceitos e consolidados os novos procedimentos.
Isto porque nela encontraremos vantagens e desvantagens nem sempre
fáceis de serem avaliadas, muitas vezes compreendendo valores difíceis
de serem mensurados, como agilidade, segurança, transparência e também
os custos, difíceis de serem comparados, em parte devido à dificuldade
de avaliar monetariamente benefícios intangíveis.
Costa e Silva (2004, p.2), em trabalho para a
Universidade do Porto, Portugal, ao abordar o tratamento de
informações, afirma que o modo como a informação é trabalhada
atualmente não permite grande velocidade no tratamento dos dados,
devido às diversas atividades que as entidades precisam executar, como
preencher questionários ou alimentar bases de dados manualmente. Afirma
ainda:
(...) havendo um método de extrair
essa informação automaticamente, os agentes econômicos poderão analisar
mais empresas, com os recursos que têm à sua disposição. Isto terá
diversas conseqüências positivas: melhorará a representatividade das
amostras utilizadas na base de diversas análises; aumentará a
probabilidade de se extrair conhe-cimento relevante dos dados;
diminuirá o erro esperado na inferência, a partir dos dados, de
descritores do universo de referência. Assim sendo, as decisões dos
agentes econômicos estarão mais bem fundamentadas e as pessoas que, nas
diversas entidades, preenchem manualmente o formato da base de dados
poderão dedicar-se a atividades de maior valor acrescentado, para si e
para a entidade em que trabalham (COSTA E SILVA, 2004, p.2).
Pensando nisso, sente-se a necessidade de
aproveitamento das potencialidades já existentes, de forma que os dados
disponibilizados possam ser acessados de maneira automática, sem
necessidade de redigitação pelos demais usuários. Essa idéia vem
exatamente ao encontro dos potenciais recursos da XBRL. Sua integração,
dentro de um sistema de informações, pode ser visualizada na figura 5,
a seguir. Nela, vê-se o XBRL acessando o banco de dados da entidade,
usar a taxonomia necessária para a formatação dos dados baseada nos
princípios fundamentais de contabilidade e outras definições
específicas para os usuários, permitir a entrada de dados e notas e
gerar um arquivo no formato XML, que pode ser utilizado para as mais
diversas finalidades, como os das agências regulatórias, impressão de
demonstrações financeiras, geração de outros arquivos no formato de
dados World ou Excell, por exemplo, e emitir as informações diretamente
no meio Internet.
FIGURA 5
O XBRL em um sistema de informações

Para Silva e Teixeira (2004, p.26),
(...) o XBRL poderá ser o elo que
falta no relato financeiro, para que a distribuição de informação
financeira seja possível de forma fácil, rápida e eficiente, permitindo:
– reduzir o tempo e o custo de acesso e de preparação;
– facilitar o acesso e a distribuição;
– utilizar software de agentes inteligentes;
– adotar diferentes políticas contábeis, designadamente, modelos valorimétricos alternativos;
– relatar a informação utilizando taxonomias desenvolvidas especificamente para diferentes quadros alternativos;
– relatar informação de caráter dinâmico;
– aumentar e melhorar a análise da informação financeira e
– criar relatórios personalizados.
A utilização da XBRL deverá facilitar o agrupamento
e a análise das informações, bem como a sua comparação. Também
beneficiará a preparação de relatórios e sua análise. Sua utilização
diminuirá os custos de preparação de relatórios e a freqüência de
erros, uma vez que ela elimina a necessidade de redigitação de dados de
um formato de relatório para outro. Para Silva (2003, p.26),
a XBRL oferece vários benefícios,
como independência de tecnologia, interoperabilidade, preparação
eficiente de relatórios financeiros e facilidade de extração dos dados.
Além disso, se todos passarem a utilizá-la,
ter-se-á uma padronização de informações que, em princípio,
beneficiaria a todos, pois isso facilitaria o intercâmbio de
informações entre as entidades e reduziria a necessidade de conversão
freqüente de arquivos que ocorre atualmente. Haveria também maior
divulgação das informações, pois se imagina que a Internet irá
possibilitar acesso a um número significativa-mente maior de usuários
interessados.
Para DiPiazza e Eccles (2004, p.3), o futuro do
corporate reporting move-se inevitavelmente em direção a maior
transparência e é preciso criar um novo ambiente de confiança, após as
recentes revelações de escândalos financeiros. Afirmam ainda que:
XBRL vai desempenhar um papel
essencial na obtenção de transparência empresarial e vai aumentar
exponencialmente a velocidade com que os investidores podem obter e
analisar a informação. Os investidores poderão solicitar informação a
partir do seu software analítico e, em apenas alguns segundos, os dados
de que necessitam serão incorporados na sua análise. Ao reduzir o tempo
e os custos da reunião de dados, o XBRL também vai ajudar a nivelar o
terreno de jogo para todos os investidores e outras partes interessadas.
Outra vantagem observada por Silva (2003, p.30) é a
possibilidade de análises automatizadas e atualizações mais freqüentes
da informação. Isso porque, com a padronização no fornecimento das
informações, softwares especialistas serão desenvolvidos visando a
depurar e avaliar as informações de maneira automatizada, reduzindo
significativamente o tempo de análise e conseqüentemente os custos de
recursos humanos necessários. E ainda, por ser um padrão aberto, o XBRL
poderá ser adaptado por qualquer grupo às suas conveniências e
necessidades, sem ter de arcar com um custo de utilização de software.
Alles e outros (2004, p.4), quando abordam os
resultados da Lei Sarbanes-Oxley, editada após os recentes escândalos
financeiros mundiais, visando a evitar ou, pelo menos, dificultar a
ocorrência destes tipos de distorções na divulgação das informações,
relatam:
A tecnologia de computação, tais
como os sistemas de planejamento de recursos empresariais (ERP) e o
surgimento do XML, especialmente o XBRL e derivativos do XBRL-GL, provê
as firmas de maneira crescente da possibilidade de sistemas on-line, em
tempo real de baixo custo. Isso poderia incluir demonstrativos
financeiros atualizados até a última transação registrada... Isso
cumpre os requisitos da Seção 409 da referida lei muito melhor que os
passos preliminares tomados até então pela Comissão de Valores
Mobiliários americana (SEC)... A premissa é de que corporações com
sistemas de monitoramento e controles on-line terão menos latência
(demora) nos seus processos e, conseqüentemente, irão ganhar vantagem
competitiva sobre os outros atores nos seus setores (Alles e outros,
2004, p.4).
E os aspectos negativos da linguagem, quais seriam?
A primeira desvantagem a ser considerada são os custos de implementação
iniciais, uma vez que ainda se necessita de muitos investimentos em
materiais e recursos humanos, para que cada grupo possa desenvolver
a(s) taxonomia(s) necessária(s) à sua área de atuação. A solução para
pelo menos minimizar esses custos será a união das entidades comuns,
canalizando recursos voltados para cada área, concentrando esforços e
evitando duplicação de estudos e conseqüentemente de custos. Dessa
forma, cada grupo vai determinar quais fatos financeiros necessita e
deseja disponibilizar, criar a hierarquia entre esses fatos, expressar
os relacionamentos e finalmente criar a taxonomia própria do segmento.
Outro aspecto a ser discutido é a questão da
segurança. Ela envolve alguns riscos, como o de a informação
transmitida não ser a mesma que chegue aos usuários, seja pela atuação
de hackers ou pelo fato de a informação poder vir a ser disponibilizada
parcialmente, ou mesmo quando se disponibilizam muitas informações, e
não se tem claro qual delas foi realmente auditada e certificada.
Roberto (2002, p.17) enumera algumas questões que precisam ser
resolvidas quando se disponibilizam informações pela Internet:
1. identificar claramente qual informação é auditada e qual não é;
2. verificar se a informação está de fato segura;
3. verificar se o conjunto da informação não está prejudicado quando se publicam informações parciais;
4. certificar se a informação que chega é exatamente aquela que o auditor assinara;
5. certificar-se quanto à integridade das informações financeiras publicadas.
Em paralelo a isso, a fim de garantir a
autenticidade e confiabilidade das informações eletrônicas, setores
específicos do governo brasileiro estão começando a trabalhar as
medidas visando a dar os primeiros passos para a implantação da chamada
Certificação Digital das Informações. Isto está sendo discutido e
considerado grande mudança para as companhias, que, junto a essa
certificação, precisarão montar toda uma política de segurança das
informações. Conforme Gonzaga (2004, p.1), “o Certificado Digital é um
documento criptografado, que contém informações necessárias para
identificação de uma pessoa física ou entidade jurídica”. Este
certificado deverá ser emitido por uma autoridade competente autorizada
pelo governo.
Resumindo os aspectos até aqui discutidos,
elaboramos os quadros 10 e 11, respectivamente com as vantagens e
desvantagens desta forma de divulgação.
A decisão então não deve se limitar apenas ao fator
custo, mas principalmente aos benefícios que isto implicaria para a
entidade, para o mercado financeiro e para a economia como um todo.
QUADRO 10
Vantagens na divulgação pela Internet, via XBRL
1
|
Padronização no formato dos dados
|
2
|
Facilidade de intercâmbio de
informações
|
3
|
Eliminação de conversão freqüente
de arquivos
|
4
|
Maior transparência devido à
divulgação pela Internet e maior penetrabilidade do meio
|
5
|
Facilidade de recuperação e
utilização dos dados
|
6
|
Maior confiabilidade
proporcionada aos analistas da informação
|
7
|
Possibilidade de integração na
cadeia de suprimentos
|
8
|
Eliminação da redundância no
fornecimento dos dados
|
9
|
Redução de erros
|
10
|
Redução do tempo de análise
|
11
|
Possibilidade de adaptações, por
ser um padrão aberto
|
12
|
Aparente redução de custos gerais
|
QUADRO 11
Desvantagens na divulgação pela Internet, via XBRL
1
|
Custos de implementação iniciais
|
2
|
Custos de manutenção constante de web sites
|
3
|
Necessidade de certificação
constante da integridade da informação disponibilizada
|
4
|
Custo da certificação digital
|
5
|
Possibilidade de se receber
simultaneamente informações auditadas e não auditadas
|
6
|
Possibilidade de ocorrer
publicação de informações parciais que podem prejudicar o conjunto da imagem das
entidades
|
O Consórcio XBRL Internacional
O Consórcio XBRL International é sediado nos
Estados Unidos e reúne atualmente cerca de 250 companhias do mundo,
entre entidades públicas, privadas, associações e agências
governamentais. Este consórcio regula as chamadas Jurisdições presentes
em vários outros países do mundo, objetivando dedicar estudos,
desenvolver e incentivar o desenvolvimento e manutenção das taxonomias
para adoção do XBRL no país. Cada jurisdição é a representação de um
país, uma região ou um regime internacionalmente reconhecido de
regulação de normas contábeis ou financeiras, sendo que, pelas regras
do consórcio, existem dois tipos de jurisdições, as estabelecidas e
aquelas ainda provisórias, que têm até dois anos para se tornarem
estabelecidas. Existe ainda a categoria direct participants, que serve
a organizações localizadas em países em que ainda não há jurisdição
formada, mas que estão interessadas em participar desses estudos (XBRL
INTERNATIONAL, 2004).
Atualmente, dez países no mundo já têm jurisdição
estabelecida: Alemanha, Austrália, Canadá, Espanha, Estados Unidos,
Holanda, Inglaterra, Irlanda, Japão, Nova Zelândia. Além desses, também
já consta como uma jurisdição o IASB, por sua representatividade em
âmbito mundial. Contam com jurisdição provisória a Bélgica, a Coréia do
Sul, a Dinamarca, a França e a Suécia. Existem ainda outros países que
não formalizaram uma jurisdição, mas já iniciaram esse processo. São
eles a Áustria, China, Eslovênia, Finlândia, Grécia, Hungria, Itália,
Luxemburgo, Noruega, Portugal, República Tcheca, Singapura e Suíça.
Eventos específicos abordando o XBRL
A XBRL Internacional e a IASC Foundation, desde o
ano de 2001, promovem, duas vezes por ano, conferências internacionais
de XBRL, nas quais são anunciados novos produtos, projetos e
desenvolvimentos, vários deles envolvendo o XBRL. A última edição, a
11th XBRL International Conference foi realizada de 25 a 28 de abril de
2005 em Boston, Massachusetts, EUA, sendo que a próxima dessas
conferências, que será a 12th XBRL International Conference, está
agendada para acontecer de 07 a 10 de novembro de 2005 e deverá ser
realizada em Tokyo, Japão.
E no Bryant College, na cidade de Smithfield, Rhode
Island, USA, um centro de pesquisas na tecnologia XBRL, realiza-se
anualmente a chamada XBRL Conference at Bryant College, que trata dos
temas taxomomia, desenvolvimento de aplicações e pesquisas em XBRL
(BRYANT, 2004).
E também, nestes países onde os estudos já se
iniciaram, realizam-se conferências, congressos, reuniões e workshops
tratando do tema, como, por exemplo, o que se anuncia para acontecer em
Bogotá, Colômbia, em 13 de fevereiro de 2006, que será o 1º Workshop
Ibero-americano de XBRL, que visa a discutir o assunto e integrar a
comunidade XBRL Ibero-americana (XBRL COLOMBIA, 2005).
A difusão do XBRL no Brasil
No Brasil já despontam estudos e trabalhos
acadêmicos envolvendo o tema XBRL, como dissertações defendidas na
Universidade de São Paulo e Universidade Federal da Bahia. Na área
governamental, mais especificamente no Banco Central do Brasil, Silva
(2003) identificou três ambientes de informações financeiras que julga
comuns a qualquer órgão público, identificou os benefícios que o XBRL
poderia trazer ao setor, propôs o desenvolvimento de taxonomias para as
demonstrações financeiras do Banco Central e para aquelas que lhe são
repassadas pelas entidades financeiras, além de já haver desenvolvido
uma proposta de taxonomia para representação dos balanços patrimoniais
daquele banco governamental, utilizando XBRL. Em 2004 e 2005,
realizaram-se o 1º e o 2º Contecsi – Congresso Internacional de Gestão
de Tecnologia e Sistemas de Informação TECSI/FEA/USP, Laboratório de
Tecnologia e Sistemas de Informação da FEA/USP, em que se discutiu o
assunto XBRL, visando a uma abordagem de experiências na utilização da
linguagem (TECSI, 2005).
O 1º Workshop Brasileiro de XBRL, coordenado pelo
professor doutor Edson Luiz Riccio, da FEA USP, contou com
representantes da USP e de outras universidades, membros de
instituições governamentais e representativas de classe, como o Banco
Central do Brasil, Comissão de Valores Mobiliários, Bovespa, Fundação
Brasileira de Contabilidade, CFC (Conselho Federal de Contabilidade),
Ibracon (Instituto dos Auditores Independentes do Brasil), Animec
(Associação Nacional de Investidores do Mercado de Capitais,
Sindcont-SP, além de cerca de 40 instituições privadas e líderes nos
estudos do XBRL (WORKSHOP1 XBRL, 2004).
Por último, em 5 de outubro de 2005, foi realizado,
pelo TECSI FEA USP em São Paulo, o 2º Workshop Brasileiro de XBRL, que
contou mais uma vez com representantes de diversas entidades públicas e
privadas nacionais e teve como palestrantes internacionais convidados a
diretora de XBRL at Edgar On-line Inc, entidade que promove a
divulgação de informações financeiras das empresas participantes da
Nasdaq, entidade equivalente à nossa Bovespa, e ainda, via Internet,
diretamente dos Estados Unidos (WORKSHOP2 XBRL, 2005).
CONSIDERAÇÕES FINAIS E RECOMENDAÇÕES
A Internet provocou uma revolução no mundo, nas
formas de comunicação e troca de informações. A linguagem XBRL, uma das
formas da linguagem XML, foi e está sendo desenvolvida no mundo para
facilitar a divulgação de demonstrativos financeiros por meio desse
novo meio de comunicação.
Para adaptar a linguagem XBRL aos demonstrativos
financeiros de cada país, são necessários estudos visando a adaptar a
linguagem ao tipo de demonstrativo financeiro divulgado em cada setor
de cada um desses países, de acordo com os princípios fundamentais de
contabilidade neles adotados. Essa adaptação é a construção da
taxonomia voltada para os seus demonstrativos financeiros, seus
formatos e suas regras. Esse é o desafio que cada setor de cada um
desses países está encarando para construir suas próprias taxonomias.
Depois de montadas essas taxonomias, as informações poderão ser
divulgadas com muito mais dinamismo, agilidade e flexibilidade, e a
troca de informações entre diferentes entidades e mesmo entre
diferentes países será possível sem que se necessite de trabalhosas e
desgastantes conversões nos formatos das informações.
Pelas características observadas da linguagem e
pelo desenvolvimento já observado em vários países do mundo, podemos
concluir que a linguagem XBRL tende a ser e deve vir a ser padronizada
para divulgação de informações financeiras pela Internet. Quanto às
mudanças de padrão, com a adoção mundial do XBRL, os diversos padrões
de divulgação das informações financeiras deverão ser unificados em um
único formato, de acordo com a taxonomia adotada, com isto visando a
gerar maior interatividade, acessibilidade, extensibili-dade (criação
de novos elementos), confiabilidade e conectividade das informações. Em
diversos países, grupos compostos por acadêmicos, membros de órgãos
governamentais e desenvolvedores de softwares estão sendo formados a
fim de estudar maneiras de se adaptarem às necessidades geradas pela
nova forma de apresentação de informações financeiras.
No Brasil, a opção pelo mercado globalizado e a
intenção de participar de mercados comuns dos Estados Unidos e Europa
devem fazer o país alinhar-se às iniciativas já adotadas por outros
países, para a padronização da divulgação de informações financeiras.
Os estudos apontam para a plena utilização da linguagem XBRL. As ações
desenvolvidas por grupos acadêmicos liderados pelo TECSI/FEA/USP e o
sucesso verificado em seus três workshops brasileiros de XBRL, além de
reuniões com representantes de importantes entidades governamentais,
apontam para um crescimento dos esforços nesses estudos e pesquisas e a
introdução efetiva do XBRL no Brasil.
O caminho para a implantação do XBRL em nosso país
aponta ser aquele seguido pelos demais países que já iniciaram esse
processo, que é o de formar um grupo de pesquisas, sediado por uma
entidade governamental ou reguladora do mercado financeiro ou contábil,
como CVM, Banco Central, CFC, Bovespa, Receita Federal e outros, e
concentrar esforços na criação das taxonomias necessárias para os
diversos tipos de usuários.
Em nosso país, os estudos foram iniciados, existindo ainda um amplo campo de pesquisas, dentre os quais se pode recomendar:
– desenvolver taxonomias brasileiras para relatórios
contábil-financeiros, obedecendo aos Princípios Fundamentais de
Contabilidade Brasileiros, cada uma aplicada às diversas áreas de
atuação das entidades, como comercial, industrial, bancária, setor
público, terceiro setor etc. (O TECSI FEA USP está liderando este
desenvolvimento desde outubro de 2003, apoiado pelo XBRL Institute dos
Estados Unidos);
– desenvolver outras taxonomias voltadas para a divulgação de informações gerenciais e para usuários internos às empresas;
– elaborar estudos comparativos dos custos em se continuar a divulgação
no formato atual utilizado, e aqueles que se teriam, passando-se ao
padrão XBRL, tentando-se inclusive medir valores intangíveis alcançados
com a utilização da linguagem;
– elaborar protótipos de divulgação de informações
financeiras, visando a estudar o desempenho do XBRL, quando comparado
com outras formas de divulgação.
– desenvolver taxonomias destinadas a comunidades
específicas dentro do país, tais como para o setor elétrico, de seguros
e saúde, tribunais de contas, a União, estados e municípios, entre
outros, onde o fluxo de informações é complexo e de grandes volumes.
É certo que a implementação da linguagem XBRL
iniciar-se-á pela área contábil-financeira, voltada às empresas de
capital aberto, que estão sujeitas ao controle pelas agências
reguladoras e pelo mercado. Também são as que se enquadram nas regras
nacionais e internacionais de governança corporativa e de divulgação de
informações, como as constantes do Novo Mercado, criado pela Bovespa.
No entanto, é de se esperar que todas as empresas,
mesmo as de capital fechado e as empresas públicas, divulguem suas
informações aos órgãos reguladores e ao público utilizando a linguagem
XBRL.
O processo de introdução do XBRL nos diversos
países tem variado, como se percebe neste trabalho. No entanto, as
características de cada país influenciam o processo. Por ser o Brasil
um dos muitos países onde existe a tradição do chamado “Code Law”, é
natural que as empresas só adotem certas práticas quando isso se torna
lei ou quando existe forte orientação dos órgãos reguladores
sinalizando às empresas que o caminho será esse.
Note-se, como exemplo, que a Securities Exchange
Commision (SEC), órgão regulador do mercado de ações norte-americano,
equivalente à Comissão de Valores Mobiliários brasileira, estabeleceu,
em 3 de feverreiro de 2005, um programa para que as empresas que
negociam suas ações no mercado norte-americano, a Bolsa de Nova Iorque,
sejam voluntárias ao uso do XBRL na divulgação de suas informações
contábil-financeiras. Esse programa, chamado de Voluntary Filing
Program, já contava, em outubro de 2006, com 20 empresas de renome
mundial. Entre essas, quatro são brasileiras: Banco Itaú, Petrobras,
Gol e Net Serviços de Comunicação. Nesse caso, essas empresas já estão
utilizando o XBRL norte-americano, pois têm de reportar seus dados para
a SEC. Assim que a taxonomia XBRL brasileira seja criada e colocada em
fase de testes e validada pelos órgãos reguladores, espera-se que os
mesmos adotem medida semelhante à da SEC, ou seja, induzindo as
empresas participantes da Bovespa a adotar a nova tecnologia, até que
isso se torne compulsório por meio de lei específica.
Artigo submetido em 20/10/2005 e aceito em 13/03/2007.
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